terça-feira, 28 de julho de 2015

O tempo e o relativo

Um dia destes achei ter aperfeiçoado a máquina do tempo. Estiquei as mãos pela janela de três anos atrás e jurei sentir teu frio. Respirei três anos a frente e senti o mesmo aroma, o carinho gelado de seu ar. Jurei ter voltado. Jurei ter estado todos estes dias atrás. Não sei se memória, alucinação ou miragem, só sei ter sido. Hoje eu voltei todos esses dias atrás e estive contigo. 
Ah, amor, o que é que a saudade não faz? Rompi os laços da verdade para te ter aqui. Pulei o tempo, o dinheiro, a distância. Te carrego comigo. Me arraste pra você. 
(oito mil oitocentos e cinquenta e cinco quilômetros pra casa). 

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Quando te vejo desafiar os enigmas do espaço tempo. (Tu és ontem hoje amanhã). Tomar  teu martelo e cravar o mármore; o bloco frio e desforme que por tuas mãos ganha beleza. Então, tal qual Michelangelo, desnudar a carne humana, libertar o anjo que para ti sempre estivera ali. Tomar esta língua, conjunto amorfo e ordinário de repetições, desvendar o abstruso elementar e fazer sentir. A pedra fria torna-se carne sob meus olhos. O pixel ultrapassa a tela, ganha pulso e bate. Um soco, um sopro, uma sinapse, uma contração. 
Minha própria voz falha. De tantos ouvidos, muda. Minhas palavras são balbucios. Meus desenhos mãos e olhos. Tu és espelho, e eu estetoscópio em minha estúpida imitação. Professum (e assim sinto,) para sempre alumnié

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Sobre eles

Quanto mais ouvido,
mais silêncio.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

"Esperei o médico, enquanto me perguntava se devia me mandar dali. Eu sabia que o que eu estava fazendo era ilegal – em Massachussetts pelo menos, porque o estado era abarrotado de católicos –, mas a dra. Nolan me disse que esse médico era um velho amigo dela, além de um homem sábio.
- Qual é o motivo da consulta? – quis saber bruscamente a recepcionista, vestida num uniforme branco e riscando meu nome numa lista.
- Como assim, o motivo? – Eu esperava que só o médico fosse me perguntar aquele tipo de coisa. A sala estava cheia de outras pacientes esperando por seus médicos, muitas das quais estavam grávidas ou com bebês de colo, e senti seus olhos em minha barriga reta e virginal.
A recepcionista me encarou, e fiquei vermelha.
- Contracepção, não é? – ela disse, simpática. – Só queria saber quanto vamos te cobrar. Você é estudante?
- S-sim.
-Então vai custar a metade. Cinco dólares, em vez de dez. Mando a fatura para casa?
Eu estava prestes a dar a ela o endereço de casa, onde eu provavelmente estaria quando a fatura chegasse, mas então imaginei minha mãe abrindo o envelope e descobrindo o que era. O único outro endereço que eu tinha era a caixa postal que as pessoas usavam para disfarçar o fato de que viviam numa clínica psiquiátrica. Mas achei que a recepcionista fosse reconhecer o número, então disse que era melhor pagar logo e tirei cinco dólares do rolo de notas na minha bolsa.
Os cinco dólares eram parte do dinheiro que Philomena Guinea havia me enviado como uma espécie de presente por estar ficando boa. Imaginei o que ela pensaria se soubesse para que eu estava usando o dinheiro.
Sabendo ou não, Philomena Guinea estava comprando a minha liberdade.
- Odeio a ideia de ficar sob a tutela de um homem – eu havia dito à dra. Nolan – Um homem não tem preocupação nenhuma no mundo, enquanto a possibilidade de ter um bebê paira sobre a minha cabeça como uma espada, me fazendo andar na linha.
-Você agiria diferente se não tivesse que se preocupar com o bebê?
-Sim – eu disse –, mas... – E contei à dra. Nolan sobre a advogada casada e sua defesa da castidade.
A dra. Nolan esperou que eu terminasse, então explodiu numa gargalhada – Propaganda! – ela disse, e rabiscou o nome e o endereço do médico num papel.
Folheei nervosamente um exemplar de Baby Talk. Rostos gordos e brilhantes dos bebês sorriam para mim, página após página – bebês carecas, bebês cor de chocolate, bebês com cara de Eisenhower, bebês rolando pela primeira vez, bebês procurando por chocalhos, bebês comendo a primeira colherada de alimento sólido. Bebês fazendo todas as coisas necessárias para amadurecer, passo a passo, e encarar um mundo agitado e instável.
Senti um cheiro que era uma mistura de cereal infantil, leite azedo e fraldas fedendo a bacalhau, e me senti infeliz e frágil. Como parecia fácil ter bebês para aquelas mulheres! Por que eu era tão distante e pouco maternal? Por que eu não tinha vontade de devotar minha vida a uma série de bebês gordos, como Dodo Conway?
Eu ficaria louca se tivesse que cuidar de um bebê o dia todo.
Olhei para o bebê no colo da mulher à minha frente. Eu não tinha a menor ideia da idade dele. Nunca consegui adivinhar esse tipo de coisa com bebês - por mim ele podia falar pelos cotovelos e ter vinte dentes atrás de seus lábios rosados. Sua cabecinha oscilava sobre seus ombros – ele parecia não ter pescoço – e ele me observava com uma expressão sábia e platônica.
A mãe do bebê sorria sem parar, segurando aquele bebê nos braços como se fosse a primeira maravilha do mundo.  Fiquei encarando a mãe e o bebê em busca de uma pista que explicasse sua satisfação mútua, mas, antes de ter chegado a uma conclusão, o médico me mandou entrar.
- Você quer um contraceptivo – ele disse alegremente, e eu respirei aliviada achando que ele não era o tipo de médico que fazia perguntas embaraçosas. Eu tinha considerado a possibilidade de dizer a ele que planejava me casar com um marinheiro assim que o navio dele atracasse no cais da Marinha de Charleston, e que só não tinha um anel de noivado porque éramos muito pobres, mas na última hora resolvi deixar essa história para lá e disse apenas que ‘sim.’
Subi na mesa do exame pensando: ‘estou subindo rumo à liberdade. Vou me libertar do medo, de me casar com a pessoa errada – Buddy Willard, no caso – só por causa do sexo, daquelas instituições para onde vão todas as garotas pobres que deviam ter usado contraceptivo como eu, porque o que quer que elas tenham feito, elas acabarão fazendo de novo...’.
Voltei para a clínica com a minha caixinha embrulhada em papel pardo no colo, como a sra. Fulana voltando de um dia na cidade com um bolo para a tia solteirona ou um chapéu do Filene’s Basement. Aos poucos, minha suspeita de que católicos tinham visão de raio X diminuiu, e fiquei mais à vontade. Eu tinha aproveitado bem meu dia de compras.
Eu era dona de mim mesma." 
(A Redoma de Vidro - Sylvia Plath)

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

When I let it sink in
The weights of whens and ifs
I can feel my skin bursting under it
Some smashed fruit on some dirty ground
Bugs crawling all over it
Feasting over death. 

All the disquiet of the world screams to me
The shakes, the jitters, the shivers
Swiping the floor of my feet
And leaving me hanging
All there is are pangs.
Again and again. 

And all the lips seems like laughs
And all the hands seems like punches
They are ready to take me down
They want to watch me fall
And I’m on the verge of it. 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

I keep tying my heart with ribbons of green and blue
I tie them tight
Until it's hard to beat

So it lies there
Swollen, numb and useless
Throbbing
Trying so hard to be appealing
But not feeling at all.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Está quieto. O seu coração, seus olhos, seus braços, seu sorriso, sua dor. Tudo está em silêncio. E eu tenho medo de rompê-lo para dizer que você se foi, porque todas as vezes que as palavras deixam meus lábios o vazio fica mais concreto. A saudade aperta um pouco mais. É tão mais fácil fingir que estamos como sempre a um fim de semana de distância.
Te lembro nas pequenas coisas. Um brinco, um costume, um voto, um doce de coco. Tenho falta das pequenas coisas. Um abraço, um beijo, passar na sua casa antes de sair e ver se a senhora aprovava o meu figurino, de imitar os cultos da igreja com meus primos quando era criança só para a senhora ver. Tenho falta de conversar meus sonhos e objetivos, de sentir a senhora ali sonhando comigo. Mais que tudo, eu queria a senhora do meu lado para ver estes sonhos realizados.
Algum tempo se passou e eu ainda não sei descrever a dor da falta. Ligar para casa e não ouvir mais sua voz. Chegar em casa e não te ter ali. Ver algo que a senhora iria gostar e não poder mais te dar. Toda vez é te perder de novo, te perder mais um pouquinho.
Agradeço pelas lembranças. Do seu sorriso, da sua voz, do seu abraço. Agradeço por ter tido o privilégio de ser sua neta. Agradeço por ter tido o privilégio de aprender com você. Aprender a ter garra e coragem para correr atrás do que eu quero.  Aprender a ter fé. Aprender que a família, ainda que não perfeita, é a coisa mais preciosa que a gente tem.
Em dias como hoje, vó, quando a saudade bate forte, são dias em que eu preciso acreditar que daí do lado de Deus a senhora consegue me ouvir dizer que te amo.  Porque eu te amo muito, vó, e sinto a sua falta mais do que eu consigo explicar ou transmitir. Acho que nunca vou saber lidar com a despedida do físico, mas para sempre te levo comigo no meu coração e na minha alma. 
Eu te amo, vó. E, não importa a distância de mundo ou de plano, isso nunca vai mudar.